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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Copa 2014


 Sexta-feira, 11 de Julho de 2014   |   ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 806
CÓDIGO ABERTO

A estratégia da socialização da vergonha nacional

link: aqui

Por Carlos Castilho em 09/07/2014
A goleada histórica sofrida no Mineirão talvez acabe mostrando que o improvável também pode acontecer fora do futebol. Terminada a partida contra a Alemanha, os comentaristas políticos na imprensa brasileira começaram a especular sobre as possíveis consequências eleitorais após o fracasso da equipe de Felipão.
As principais manchetes dos jornais brasileiros no dia seguinte ao adiamento do sonho do hexa batiam na tecla da vergonha nacional. Destacar um sentimento como este equivale a transformar todos os brasileiros em protagonistas de um fracasso, que na verdade foi basicamente da equipe técnica e cartolas da CBF, dos jogadores, das empresas que esperavam faturar muito, dos publicitários e executivos da mídia que levaram quase 200 milhões de brasileiros a dar como certa a conquista de uma sexta estrela na camiseta verde e amarela.
Socializar a vergonha e humilhação gera inevitavelmente acessos de mau humor e irritação que seguramente contaminarão o estado de espírito dos brasileiros nos próximos dois meses, justamente o período pré-eleitoral. Antes da Copa do Mundo, a imprensa se esmerou na tentativa de criar um clima de pessimismo diante da perspectiva de um caos materializado na expressão “Imagina na Copa” .
O pessimismo construído pela imprensa em torno da organização da Copa não contaminou a atuação de repórteres e comentaristas na cobertura dos preparativos da seleção. A equipe de Felipão foi blindada pela imprensa até o jogo contra a Alemanha. Mas o caos previsto pelos seguidores do espírito "Imagina na Copa" acabou não acontecendo. O Mundial acabou se transformando numa grande festa elogiada em todo o mundo, o que contribuiu para elevar a autoestima e o astral dos brasileiros.
Os sete gols sofridos no jogo da Alemanha provocaram uma reviravolta nesta situação. Os principais jornais brasileiros e a TV Globo abandonaram a cumplicidade com a equipe técnica da CBF ao mesmo tempo em que passaram a usar o argumento da humilhação para acabar com o efêmero bom humor do inicio da Copa. Esta não foi a única vez que fracassamos numa Copa do Mundo, mas é inegavelmente a primeira em que houve tamanha mobilização da opinião pública neste tipo de evento.
Até os mais remotos rincões do Brasil foram incorporados ao marketing massivo de empresas como a Ambev, que deslocou telões por mais de 700 vilarejos do interior para que as pessoas vissem os jogos do Brasil, sob o slogan “Onde tem Brasil tem Copa. Eonde tem Copa tem que ter festa”.
Vamos começar a campanha eleitoral sob o estigma da baixa estima e da frustração, o que seguramente criará o caldo de cultivo para cobranças e protestos. Mensagens no Facebook logo depois da tragédia do Mineirão eram inequívocas: “Mas o pior ainda vem por aí. A campanha eleitoral”, dizia uma mensagem postada horas depois do fim do jogo.
Num clima como este, a corrida eleitoral passa a ser uma incógnita. A vantagem da presidente Dilma nas pesquisas de intenção de voto, que parecia sólida, pode virar fumaça, porque estamos numa era onde as convicções pessoais mudam ao sabor do conteúdo de mensagens na internet.
Derrotar a presidente Dilma não vai mudar quase nada na política brasileira, porque os políticos hoje se diferenciam mais pelo marketing do que pelos projetos. Nas promessas eleitorais eles podem até ser diferentes, mas, uma vez empossados, acabam todos rezando pela mesma cartilha, porque a estrutura da maquina burocrática estatal e da economia do país é muito mais forte do que a ideologia dos partidos.
Mas a catarse dos eleitores humilhados pode fazer com que o improvável e tido como inevitável aconteça também fora dos estádios. Esta é mais ou menos a mensagem que a imprensa está transmitindo à opinião pública nacional, como pode ser visto nos principais editoriais e análises de comentaristas políticos nos dias seguintes à goleada do Mineirão.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Em cada perfil, um semideus autoproclamado e cheio de razão


TODO MUNDO É FASCISTA

em:


07/11/13

link:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed771_desde_o_surgimento_da_internet_todo_mundo_e_fascista

REDES SOCIAIS

‘Desde o surgimento da internet todo mundo é fascista’

Por Sandro Vaia em 05/11/2013 na edição 771
Reproduzido do Blog do Noblat, 1/11/2013; intertítulo do OI
A observação foi feita em tom irônico pelo professor norte-americano Douglas Harper em seu dicionário etimológico, e convenientemente lembrada esta semana pelo crítico literário Sérgio Rodrigues em seu blog. Esse passou a ser o xingamento campeão nas redes sociais.
Usa-se a torto e direito, mais ainda do que reacionário e direitista, e por ironia das ironias na maioria das vezes é usado por quem não sabe que seu significado lhe serviria como uma luva. Mal comparando, seria como se o Tiririca chamasse alguém de palhaço.
Na semana passada [retrasada], dois acontecimentos muito didáticos jogaram luzes sobre esse jogo de sombras onde se esconde esse crescente autoritarismo castrador que se espalha como unha-de-gato em muro chapiscado.
A Folha contratou dois novos colunistas semanais para, segundo ela, ampliar o pluralismo de opiniões em seu caderno “Poder”: Reinaldo Azevedo, que tem um blog campeão de audiência hospedado na Veja, e Demétrio Magnoli, sociólogo e geógrafo conhecido por combater a imposição de cotas raciais nas universidades brasileiras.
A internet se encheu de gritos de maldição contra os articulistas e o jornal que os contratou, leitores anunciaram que cancelariam as suas assinaturas e, fato inusitado, a coluna de estreia de Azevedo, sobre a ação de libertação dos beagles de um instituto de pesquisas científicas, levou a ombudsman do jornal a classificar delicadamente o colunista como um “rotweiller”- o que ela explicou depois, claro, era só uma força de expressão.
País estranho
Um caso claro de intolerância ideológica, que pode ser facilmente curado por duas providências simples: ou deixar de ler o jornal ou continuar lendo o jornal mas não ler os colunistas desagradáveis. Rebater argumentos e tentar provar com fatos que os deles estão errados e que os seus estão certos nem pensar. Isso dá muito trabalho. Negar em bloco e chamar de “fascista” facilita a vida. Desqualificar sempre, debater nunca.
Mais grave do que isso foi o que aconteceu numa feira literária em Cachoeira, no interior da Bahia, quando ativistas armados apenas pelas suas bordunas de intolerância intelectual impediram, aos gritos, que se realizassem os debates entre o sociólogo Demétrio Magnoli e a cientista social Maria Hilda Baqueiro Paraíso e o filósofo Luiz Felipe Pondé e o sociólogo francês Jean -Claude Kafmann.
Magnoli e Pondé foram impedidos de falar – como Yoani Sanchez já havia sido impedida meses atrás – por pessoas que os xingavam de “fascistas”. Exemplo perfeito daquilo que os franceses chamam de “glissement semantique”- ou deslizamento de sentido das palavras.
País estranho e paradoxal onde opiniões fortes são comparadas com mordidas de rotweiller e onde fascistas em ação proíbem debates e quem é impedido de falar é que é o fascista.
***
Sandro Vaia é jornalista, autor de A Ilha Roubada (Editora Barcarolla), sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez e Armênio Guedes, Sereno Guerreito da Liberdade (Barcarolla). E.mail: svaia@uol.com.br