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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Música



Em:










Em show na Concha, Clarice Falcão deixa transparecer a fragilidade do seu trabalho











Foto de Lucas Seixas

A impressão que Clarice Falcão deixou nos mais atentos ao seu show no último domingo (08/12), na Concha Acústica do TCA (Salvador) é a de que a brincadeirinha que começou no YouTube acabou indo “longe demais”. Clarice adotou uma personagem bonitinha, fofinha, esquisitinha, que compõe canções com arranjos simples, mas com uma pegada irônica, sarcástica e bastante sem noção. Difícil não dar risadas gostosas ao ouvir a moça cantar tão docemente versos como “eu queria tanto que você não fugisse de mim, mas se fosse eu, eu fugia”, ou “Só pra você saber, eu esqueci você, e se um dia eu te ligar de madrugada em desespero… é engano”, especialmente se for para ouvi-la cantar despretensiosamente em um vídeo caseiro. Clarice Falcão é a fofinha, a engraçadinha, aquela que do nada vai falar algo inesperado, mas sempre assim, espontaneamente.
Deu certo, Clarice conquistou corações dos que são apaixonados pela cultura Porta dos Fundos, que investe em um humor por vezes hiperbólico, outras vezes com base na graça pela falta de lógica, sempre se apoiando em atores/personagens que causam empatia no público. Clarice Falcão surgiu também dessa leva, e certamente muitos dos seus fãs adolescentes, presentes no show da Concha, são os mesmos consumidores de produtos afins ao Porta dos Fundos. Mas esse “deu certo” certamente não se aplica a versão “show” da moça.
Clarice Falcão em show na Concha Acústica - Foto de Lucas Seixas
Clarice Falcão em show na Concha Acústica – Foto de Lucas Seixas
Já pelo disco, intitulado “Monomania” era possível notar que Clarice Falcão não necessariamente precisava ter lançado um disco. Afinal, convenhamos, qual a graça de ouvi-la cantar em CD as canções que conhecemos dos seus fofos vídeos no YouTube sem ser através destes? Um produto que foi todo construído com base na imagem não necessariamente precisa ser vinculado ao meio fonográfico para ter algum valor a mais. Mas Clarice foi conduzida por este caminho e, claro, quem grava disco quer tocar.
O resultado é um show que tenta o tempo inteiro reproduzir o universo cômico criado pela atriz/cantora quando seu produto começou a tomar forma. Clarice faz a esquisita, e não tem desenvoltura no palco, não sabe lidar com o público, não parece se sentir à vontade com a histérica comunidade de fãs que se aglomera diante dela, não é uma “artista da música”, por assim dizer. Acompanhada por uma banda excelente e bastante versátil (o baterista se reveza com o violonista, o baixista é também trompetista e se reveza com o tecladista, etc), as músicas ainda assim são bobinhas e curtinhas, e daí é fácil concluir que a moça nem tem repertório para um show. Mas pra fazer pelo menos uma hora de som, canta um par de “novas músicas” e faz uma gracinha com o namorado, o ator Gregório Duvivier, cantando um tema de “A Bela e a Fera”, depois uma versão “abrasileirada” insossa de “Let’s Call The Whole Thing Off”, tão banal como todas as suas canções soam ao vivo.
Talvez a escolha do palco para o show em Salvador tenha prejudicado Clarice Falcão, que de uns meses pra cá vem se apresentando em arenas em vez de teatros – onde ela fez suas primeiras experiências e onde seria bem mais adequado. Sua performance tem um quê de stand up comedy que não funciona em espaço para shows grandes e dançantes, e o seu show é justo o contrário. As pessoas queriam ver a carinha bonitinha esquisitinha da mocinha do Porta dos Fundos, da mocinha que canta as canções excêntricas com cara de espontânea, e a Concha Acústica do TCA te pede mais que isso.
De qualquer forma, a impressão que dá é a de que Clarice Falcão não deveria ter saído da web. Não porque ela seja incapaz ou ruim, mas porque é importante que os produtos encontrem os veículos onde funcionam e por lá mesmo fiquem. No momento em que Clarice rompeu com a web e entrou em um palco de verdade, a fragilidade do seu trabalho tornou-se evidente, bem como seu desajuste naquele ambiente.
Clarice Falcão em show na Concha Acústica - Foto de Lucas Seixas
Clarice Falcão em show na Concha Acústica – Foto de Lucas Seixas
Provavelmente o momento de maior emoção foi quando uma fã invadiu o palco e tascou-lhe um beijo na boca, um movimento brusco que ninguém estava esperando em meio a tanto marasmo. Fora isso, somente um produto desajustado e frágil que se confia na lealdade de um público jovem formado pela internet e pelas novas investidas da linguagem cômica que funciona na web e na TV, mas não em um palco para uma apresentação musical de uma cantora de verdade, com um projeto consistente e com um repertório convincente. O produto Clarice Falcão não é pra tanto.
Ana Camila
Ana Camila é jornalista cultural e mestre em cinema pela Universidade Federal da Bahia.





link: http://cabinecultural.com/2013/12/11/em-show-na-concha-clarice-falcao-deixa-transparecer-a-fragilidade-de-seu-trabalho/

terça-feira, 14 de maio de 2013


Na REDE

"JORNALIRISMO"
- Caderno de Jornalismo -
Jornalismo
O tal do Livro do Lobão
Guilherme Fernandes

link desta postagem: http://jornalirismo.com.br/jornalismo/14/1748-o-tal-do-livro-do-lobao


imagem: http://www.lobao.com.br/index.php


Nem bem Manifesto do Nada na Terra do Nunca (Editora Nova Fronteira, 247 páginas) foi lançado e Lobão já está lá, de luvas postas, de seu lado do córner, esperando a sineta tocar para que o seu combate contra a bundamoliceintelectual tivesse início. Prevenido, já adianta, aos leitores e críticos, os próximos capítulos, logo na orelha do novo rebento: “É certo que muita gente vai criticar este livro só de orelhada, a partir de frases tiradas do contexto e de uma visão estereotipada de seu autor”.
E não é que, dessa vez, Lobão tinha razão?
O que se viu nestes últimos dias foram declarações ofensivas, frases sensacionalistas e artigos dos mais baixos possíveis defenestrando-o por causa de factoides criados pela própria imprensa. Nomes, como Paula Lavigne, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mano Brown, figuravam em notas nos portais de notícias desse nosso ciberespaço de meu Deus. Teve até chamado para a briga, advindo do líder dos Racionais MCs.
Achei tudo isso engraçado demais, porque tinha a certeza de que muitos que o estavam criticando, senão todos, e rebatendo pseudoacusações, ainda não tinham lido nem sequer dois capítulos do tal “Manifesto Lobônico”. O livro nem ao menos tinha sido lançado, quando essas polêmicas surgiram. Ou seja, outra vez, a “imparcialidade” da imprensa nos pregou mais uma peça daquelas. Estavam criticando um livro que não tinham lido.
Mesmo assim, o estrago estava causado. Seja para o bem, já que haveria muitos curiosos adquirindo a obra somente para ler os pensamentos do velho lobo sobre os assuntos que pipocaram na imprensa; seja para o mal, uma vez que muitas pessoas já leriam o livro com uma veemente má vontade, procurando sustentáculos para suas criticas ao cantor. Adquiri a obra nem bem ela chegara às prateleiras das livrarias de São Paulo.
Acompanho de perto o trabalho de Lobão. Admiro suas músicas, sua batalha, mesmo que vista de outra forma, em defesa da classe musical e, acima de tudo, sua coragem para expor opiniões sobre quaisquer assuntos, mesmo que elas sejam divergentes do senso comum. Concordo com tudo que ele diz? Mas é claro que não! Se concordasse, me chamaria João Luiz Woerdenbag Filho e seria Lobão. No entanto, respeito-o, assim como qualquer pessoa que tenha pensamentos que divergem dos meus.
Descompasso entre livro e repercussão
Voltando ao livro, devorei-o em menos de dois dias. E, sinceramente, ao terminá-lo, tive a sensação de que algo estava em desacordo com o que estava acompanhando nos veículos de imprensa. O livro está longe de ser uma metralhadora giratória, como a mídia o estava vendendo, e os supostos alvos citados nas reportagens não passam de meros exemplos dentro de um contexto muito bem dissecado por Lobão, na explanação de seus pensamentos.
O livro nada mais é do que a exposição de pensamentos de um indivíduo que pensa diferente do status quo, da grande massa. Com várias passagens engraçadíssimas e outras mais sérias, mais argumentativas, Lobão tenta apresentar suas ideias da forma mais clara possível, seja debatendo situações que não são debatidas pelo grande público, como a Comissão Nacional da Verdade, criada pela presidente Dilma Rousseff, seja explicando mal-entendidos, como sua recusa em tocar no festival alternativo Lollapalooza e sua saída do programa “A Liga”, da Rede Bandeirantes.
Nada demais.
Ao contrário do que muitos esperavam, Manifesto do Nada na Terra do Nunca é um bom livro, mesmo sendo um dos muitos rounds da luta “Lobão x Críticos”. Mostra que o autor estudou bastante para poder expor seus argumentos mais sérios de forma bastante embasada, e, ainda assim, consegue arrancar boas risadas com algumas situações inusitadas que perpassaram sua história recente.
É claro que, por ser um livro escrito por um indivíduo que expõe suas opiniões sobre determinados assuntos, ele se mostra bem parcial em certas partes. Eu mesmo não concordo com algumas celeumas levantadas por Lobão, mas respeito-o por ter, mesmo que de forma equivocada em alguns casos, tocado na ferida, a fim de suscitar um debate mais qualificado, mais intelectualizado sobre temas que merecem a atenção do povo brasileiro, como a Lei Rouanet, a via de mão dupla que é o preconceito, desilusões políticas, entre outros assuntos.
O que a repercussão desse livro está mostrando é que, nos dias de hoje, está cada vez mais difícil manter um debate intelectual no Brasil. Discordâncias ideológicas são levadas para o lado pessoal, e divergências de ideias, mesmo que embasadas em argumentos firmes, caso não façam parte do formato de um pensamento vigente, são descaracterizadas única e simplesmente por ser diferentes. Esmeram-se em combater as opiniões contrárias, ao invés de conviver pacificamente com elas.
Sem proselitismos, mesmo que inevitáveis, tenho visto certos partidos, algumas mídias, determinadas universidades e outras lideranças lutando, cada vez mais, pelo cerceamento das opiniões divergentes, querendo que todos pensem da mesma forma, assistam às mesmas coisas e leiam os mesmos livros.
E sem as divergências, o que nos sustentará como cidadãos, no futuro?

Abaixo, reproduzo alguns trechos do livro que julgo interessantes:
“Amamos a pobreza. O que mais me impressiona é a quantidade de gênios que nossa cultura produz, a formular teorias incríveis no intuito de proteger esse patrimônio de que, tristemente, acostumamos a nos envaidecer. Isso gerou uma forma singular de autoengano: nos achamos especiais através dos nossos piores defeitos.”
“E quanto ao rap? Bem, o rap e o hip-hop, em geral, estão vivendo momentaneamente como reféns do simplismo e do populismo da cartilha do partido do governo. (...) A atitude deles é essa, sempre: se você não é mano, você é um ser repugnante a ser desprezado.”
“Uma parte substancial da população exige saber a verdade integral. E isso não pode nos ser negado. Qualquer cidadão brasileiro, independente de partido, credo ou convicção político-religiosa, tem o direito de pleitear ao governo e, ao mesmo tempo, à Comissão da Verdade, todas as faces da história. De outra forma, a Comissão da Verdade será apenas uma patética Omissão da Verdade.”
“Somos obrigados a admitir que estamos lidando com sociopatas que não possuem o menor senso de autocrítica e anseiam por aniquilar a convivência com oposições e qualquer tipo de adversário.”
“Sabia que jamais poria os pés naquela produtora outra vez, sabia que nunca mais gravaria para aquele programa outra vez. Olhei para o microfone pendurado na lapela, que ainda estava ligado, dei uma risada de escárnio e devo ter dito algo como ‘Fodam-se todos vocês, seus babacas, fui!’”




Livro:
 Manifesto do Nada na Terra do Nunca (Editora Nova Fronteira, 2013, 247 páginas)
Autor: Lobão
Preço médio: R$ 39,90
Para saber mais; site do Lobão: